Alguns pingos nos “is”

Ricardo Álvares

Hoje respondi a uma mensagem de uma internauta, amiga de um amiga, que como grande parte da classe média brasileira está absolutamente mal informada sobre a questão quilombola. A mensagem dela teve origem na TFP e, cinicamente, acusa aos quilombolas de vandalismo por não permitirem o lançamento de um panfleto terrorista e racista sobre o tema. Minha resposta foi escrita às pressas e meio no calor do momento, mas compartilho com quem mais tiver interesse:

Como você sabe, durante mais de 350 anos cerca de 4,5 milhões de africanos foram escravizados em terras “brasileiras”. Findo o sistema escravista, estes escravos e seus descendentes foram literalmente abandonados à própria sorte, sem qualquer tipo de reparação histórica ou social que pudesse fazer com que passassem a viver uma vida mais digna. Muitos deste escravos libertos passaram a viver como outros tantos que haviam fugido ou já eram forros, ou seja, em comunidades praticamente autônomas, localizadas na maior parte dos casos em locais pouco valorizados pela sociedade de então, quer por sua localização (distante dos grandes centros, em fundos de vales, altos de serras etc.), quer por sua baixa produtividade segundo as técnicas então conhecidas.

Ali permaneceram, sofrendo cada vez mais as pressões externas ou por elas sendo engolidas, até que, no bojo da Constituição de 1988, após muita luta, os movimentos sociais conseguiram garantir um artigo que reconhecia a existência de comunidades negras que se mantiveram, ao longo do último século, ou até mais, de forma relativamente autônoma do ponto de vista cultural e econômico, por exemplo, conferindo-lhes direitos territoriais para viabilizar a sustentabilidade de sua existência. Portanto, foram necessários 100 anos após o fim do sistema escravista para que algum direito territorial desta parcela da sociedade brasileira fosse reconhecido. Passados 19 anos que isso ocorreu, não obstante, os avanços foram irrisórios considerando-se a dimensão da questão.

Ocorre, contudo, que uma parcela da sociedade nacional, justamente aquela cujos antepassados utilizaram largamente a mão-de-obra escrava e que, tantas e tantas vezes, obtiveram total ou parcialmente suas terras com base na espoliação deste tipo de grupo étnico invisibilizado pelo Estado brasileiro, não está disposta a admitir a possibilidade de negros, descendentes de ex-escravos, terem acesso à regularização de seus territórios.

Os ditos proprietários vêem a terra como uma reserva de valor e simples meio de produção, como ele gostam tanto de dizer e ecoar aos quatro cantos: propriedade. Portanto, se não podem produzir em um lugar, podem perfeitamente se mudar para outro, visto que terra é terra em qualquer lugar. Já este tipo de comunidade tradicional, conhecida como quilombola, mantém outro tipo de relação com seu espaço. Entre eles opera a lógica do que se convencionou chamar de território, fonte de relações profundas com os antepassados e de esperança de vida para as novas gerações. Ali se encontram cemitérios, reminiscências históricas, elementos culturais diversos, nos campos da religião ou da reprodução social, etc. Portanto, a lógica é completamente diferente.

Quando a TFP, travestida em “Movimento Paz no Campo”, capitaneada por “Dom Bertrand” (sei lá que grau de parentesco com os Dons Pedros), inicia uma campanha difamatória com estratégias terroristas contra aqueles que, praticamente de forma silenciosa e invisível, permaneceram por mais de 100 anos sem qualquer tipo de direito assegurado, estamos assistindo nada mais nada menos, como se diz no interior, sem tirar nem pôr, a uma estúpida forma de racismo. E o que mais assusta é que a mesma encontra eco na mal informada classe média brasileira, cuja opinião é formada por órgãos de imprensa que representam, direta ou indiretamente, os grandes proprietários de terras (griladas e espoliadas muitas das vezes) deste pais, com a Rede Globo, a Revista Veja, os jornais O Estado de São Paulo, O Globo, Folha de São Paulo etc.

Conforta saber que alguns poucos, como me parece ser o caso da senhora, procuram fontes alternativas para contrapor as informações que recebe da grande, e tendenciosa, mídia brasileira.

Sobre este caso citado na mensagem abaixo, especificamente, faço o seguinte comentário. Cerca de 80% da população de Salvador é negra e, na maior parte dos casos, se identifica solidariamente aos irmãos quilombolas. Não obstante, vem um descendente direito daqueles que foram responsáveis pela escravização de seus antepassados e planeja fazer, à revelia do poder público, um evento em praça pública para o lançamento de um panfleto caluniador e difamatório. O poder público, agindo segundo os preceitos do bom senso, proibiu este tipo de ato racista. Mas, obviamente, como o que querem é espalhar inverdades, reverteram totalmente o sentido dos fatos e se colocaram na posição de vítimas. Agora, imagina o contrário: vários quilombolas vão a Petrópolis, feudo dos Dons fulanos, fazer o lançamento de um livro, escrito por um deles, que diz que os herdeiros da família real são uma farsa… eles seriam recebidos com tapete vermelho, presumo.

Se quiser saber um pouco mais sobre a questão quilombola, sugiro uma consulta rápida a saites como estes:

http://www.cedefes.org.br
http://www.koinonia.org.br/oq
http://www.cpisp.org.br

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Sobre odracir seravla

antropólogo; observador; um tanto quanto enrolado; ativista político por um lado, anarquista por outro; curto muito minha família, meus amigos de ontem e de hoje; não consigo viver sem música, mas odeio dançar; o dinheiro, infelizmente, é um mal necessário; tenho preocupações estéticas com o que faço, muito pouco comigo; curto montanhas, embora tenha preguiça de escalá-las; gosto de fotografar o lusco-fusco; vivo me perdendo neste mundo sem fim chamado internet e uso muitas reticências, pois acredito que nada acaba... nem com a morte...
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