Brejo dos Crioulos: A caminhada resgatando sua história e territorialidade

João Batista de Almeida Costa

Os descendentes de quilombolas que se encontram fixados em áreas da outrora inóspita Jaíba no Norte de Minas Gerais, procurando manter vivo o modo de vida implantado por seus antepassados, baseado em princípios da liberdade, da solidariedade, da reciprocidade e da defesa da vida de todos, ingressaram no Ministério Público Federal com o pedido de reconhecimento de sua condição de comunidade remanescente de quilombo e regularização de sua situação fundiária. Localizam-se às margens do ribeirão Arapuim na antiga comunidade negra de Brejo dos Crioulos, hoje dividida em diversos grupos locais: Araruba, Arapuim, Cabaceiros, Caxambu, Conrado e Furado Seco, nas divisas dos municípios de São João da Ponte e Varzelândia.

Brejo dos Crioulos, atualmente, transformou-se, enquanto denominação coletiva, no símbolo da territorialidade da comunidade negra, que busca resgatar sua história e o território onde seus antepassados viveram escondidos da sociedade escravocrata e livres para viverem a sua vida conforme os padrões culturais que seus ancestrais viveram na África e, também, adquiridos no Brasil.

Seus ancestrais penetraram o território do vale do rio Verde Grande e fixaram suas raízes em torno das lagoas do ribeirão Arapuim, quando era considerado terra imprópria para o uso humano devido a existência de doenças como a maleita que afastou a cobiça do homem branco e possibilitou aos descendentes de africanos, secularmente, aí se instalarem. Mas, a partir da instalação de estrada de ferro no referido vale e do extermínio do mosquito transmissor de maleita das matas que cobriam a região, a partir dos anos 1940, esse território passou a ser penetrado por fazendeiros que, usando da força bruta, expulsaram famílias inteiras da terra que por décadas fora ocupada por seus membros, vide os conflitos de Brejo dos Mártires e o de Cachoeirinha, mais conhecidos da população regional e estadual.

Esses foram anos de terror. Quando famílias inteiras sofreram as mais atrozes violências, sendo obrigados muitas vezes a se esconderem nas matas que circundavam suas casas e em seguida fugirem para outros lugares para não serem mortos por aqueles que cobiçaram suas terras. Desde essa época, fugindo ao horror da violência fazendeira apoiada pelo poder municipal, parte de seus parentes espalharam-se pelo país inteiro, fugindo, como seus ancestrais, para outros lugares para manterem-se vivos e livres. E o território comunitário foi retalhado entre fazendeiros (mais especuladores imobiliários que produtores rurais) que continuam a fazer ameaças para assegurar o domínio da terra que historicamente não lhes pertence. Mas, os quilombolas do médio Arapuim, sabedores do amparo da Lei Maior ao direito que têm abrem-se para a retomada do território ancestral com a certeza de que a Justiça será feita apesar da justiça local estar na mão dos poderosos.

Os moradores de Brejo dos Crioulos, vêem permanentemente, atualizando nas terras de seus antepassados o direito à vida e à liberdade. Ao mesmo tempo em que atualizam em suas labutas cotidianas a solidariedade e a reciprocidade como padrão de vida. Todos juntos formam uma coligação de famílias unidas desde o século XIX e resistindo à perda de sua territorialidade, que lhes dá identidade.

Após ingressarem na Procuradoria Geral da República e na Fundação Cultural Palmares com o pedido do reconhecimento como Comunidade Remanescente de Quilombo, os moradores de Brejo dos Crioulos, através de um de seus moradores, Francisco Cordeiro Barbosa (Ticão), passaram a demandar apoio das entidades vinculadas ao movimento popular do Norte de Minas, tendo em vista as ameaças de ocupação de seu território por sem-terras que vêm invadindo fazendas nessa região.

Foi construída uma rede externa de apoio para que o processo de reconhecimento como comunidade remanescente de quilombo e de regularização fundiária aconteça sem maiores traumas para seus moradores. Mesmo com apoio, em virtude da estratégia de retomada de áreas do território tradicional para forçar o avanço do processo de regularização fundiária ocorreram violências variadas por parte de fazendeiros e seus jagunços que não conseguiram traumatizar os quilombolas de Brejo de Crioulos. Os fazendeiros, mesmo com o apoio do poder municipal da Polícia Militar de Minas Gerais, não conseguiram retirar dos membros da comunidade o sentido de liberdade. Daí a brava resistência vivida.

O resultado da resistência está sendo coroado com o reconhecimento do RTID em 24/12/2007, propiciando avançar com maior rapidez o processo de regularização, mas não há ilusão quanto a isto. O Quilombo de Brejo dos Crioulos está preparado para resistir muito mais tempo ainda para garantir às pessoas de agora e do futuro o território legado pelos quilombolas do passado!

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Sobre GT RTQ-MG

Grupo de Trabalho sobre Regularização de Territórios Quilombolas de Minas Gerais.
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8 respostas para Brejo dos Crioulos: A caminhada resgatando sua história e territorialidade

  1. Josué disse:

    Sou morador da comunidade brejo dos crioulos tenho 20 anos e afirmo que a versão de João Batista de Almeida Costa, não procedo como a real situação da comunidade.
    “…violências variadas por parte de fazendeiros e seus jagunços que não conseguiram traumatizar os quilombolas de Brejo de Crioulos.” Este fato nunca foi presenciado por nenhum morador da comunidade bejo dos crioulos seja ele remanescente ou não.
    O que existe de fato são depredções de bens particular. Como “corte de cercas”, e “roube de reis”, por parte de algumas pessoas mal intesionadas que vieram de outros locais para aderier a causa quilombola.
    Acredito que antes de se publicar qualquer fato. Deva conhecer a origem e a veracidade das informações.

    Grato. Josué

  2. GT RTQ-MG disse:

    Josué Antunes demonstra em sua argumentação neste blog que não conhece a comunidade negra rural de Brejo dos Crioulos e que se atualmente é nela morador deve estar vinculado aos fazendeiros que se confrontam com os quilombolas e não faz parte das famílias que compõem esta mesma comunidade, já que nos estudos desenvolvidos para a realização da dissertação de mestrado defendida no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília fruto de um trabalho campo com duração de 06 meses nos anos de 1997 e 1998 não se encontra nenhuma família Antunes como membro das famílias de Brejo dos Crioulos.

    Mas, considerando que o mesmo é morador atual ao afirma que “tem 20 anos e afirm(a) que a versão de João Batista de Almeida Costa, não proced(e) como a real situação da comunidade”. A de que os quilombolas que residem nos grupos de vizinhança que compõem o quilombo de Brejo dos Crioulos tenham sofrido “…violências variadas por parte de fazendeiros e seus jagunços que não conseguiram traumatizar os quilombolas de Brejo de Crioulos.” Também afirma que “este fato nunca foi presenciado por nenhum morador da comunidade bejo dos crioulos seja ele remanescente ou não”. E, ainda mais, “o que existe de fato são depredções de bens particular. Como ´corte de cercas, e ´roube de reis, por parte de algumas pessoas mal intesionadas que vieram de outros locais para aderier a causa quilombola”.

    Não é necessário voltar ao passado nos idos dos anos 1960 e 1970 quando os quilombolas perderam suas terras quando foram ameaçados por grupos de jagunços armados a serviço de fazendeiros que depois de tomarem suas terras as venderam para outros e outros e outros, até chegar na posse dos atuais fazendeiros. Basta ler os artigos publicados na mídia regional, estadual e nacional sobre a ação de fazendeiros macomunados com a polícia militar sediada em Janaúba e disponibilizada neste blog para compreender que sendo morador de Brejo dos Crioulos desconhece as agressões violentas que os quilombolas sofreram no ano de 2007.

    A violência dos fazendeiros viabilizada com a polícia militar de Janaúba demonstra que mesmo assim os quilombolas de Brejo dos Crioulos não se amedrontam, nem se sentem traumatizados e nem se escondem diante do que julgam um direito legítimo. Reaver o território do quilombo onde seus ancestrais viveram desde os idos de 1.750 como demonstra a pesquisa realizada por mim junto a arquivos públicos e aos moradores desta comunidade.

    Pode-se depreender que o referido Josué Antunes se posiciona a favor dos fazendeiros e contrário aos quilombolas pois se dispõe a veicular neste blog uma visão falsa da realidade. Ele toma os internautas, estudiosos, cidadãos que se posicionam ou não a favor dos quilombolas para afirmar uma falsa realidade que ele não percebe no quintal de sua casa. Já que a mídia escrita e televisada apresentou em 2007 as agressões sofridas por lideranças quilombolas que lutam para conquistar o direito ao território definido constitucionalmente.

    Há que considerar que diversas entidades e instituições têm se posicionado do lado dos quilombolas assim como advogados bem pagos, a polícia militar e sujeitos incautos como parece ser o Josué Antunes se posicionam a favor dos fazendeiros. Em sua afirmativa a possibilidade de assessoramento só é cabíbel aos fazendeiros, mas não aos quilombolas. E, também, deixa claro que para ele, a lei do mais forte e do mais rico é que deve prevalecer na sociedade brasileira.

    É contra este posicionamento que este blog e muitos dos internautas, estudiosos e cidadãos de bem se perfilam junto aos quilombolas na defesa dos direitos humanos e da dignidade humana nesta excludente e injusta sociedade brasileira.

    João Batista de Almeida Costa

  3. Lucélia disse:

    Sou professora na região de Orion municipio de Varzelândia – Mg e conheco de perto a realidade de crianças descendentes de quilombolos e que até hoje sofrem com o preconceito de algumas pessoas … infelizmente… Gostaria de parabenizar João Batista pelo artigo e por se preocupara em mostrar para todos uma realidade cruel e indigna de uma comunidade sofredora e que sonham com um futuro onde onde possam viver de maneira digna……………..

  4. Arnaldo disse:

    Caro João Batista,
    Não sei se a história de minha mãe se enquadra dentro dessa realidade apresentada nos meados de 1940. Por coincidência, minha mãe aos 82 anos perdeu toda a familia, devido a brutalidade que o pai dela sofrera (assassinado e que morreu nos braços dela), que segundo o relato era no Brejo dos Crioulos; veio para São Paulo, perdeu os familiares e até hoje não sabe nada do paradeiro de seus irmãos.

    Gostaria de me aprofundar mais sobre a familia em que os pais dela e meus avós (Manoel Alves Bandeira e Mãe Luiza Gonçalves da Silva) que viviam cultivando e sobrevivendo nesta região, Brejo dos Crioulos.

    Caso tenha algo que possa nos oferecer, para que possamos formar uma base de nossa história, digo da minha mãe, que até hoje vive os efeitos do seu passado, desde já agradeço muito, pois ficariamos felizes de sua cordial atenção!!!!

  5. João Batista disse:

    Arnaldo, sua família foi uma das atingidas pelo processo de divisão de terra verificado nos anos de 1930, a partir de quando, os brancos começam a expropriar o território quilombola de Brejo dos Crioulos. Seus moradores que viviam aí desde aproximadamente 1.750 vêem chegar brancos querendo se afazendar nas maravilhosas terras da comunidade. Há parentes seus em Brejo dos Crioulos e será possível retomar a história de sua Mãe.
    Entretanto estou morando no Rio de Janeiro e somente quando for a Brejo dos Crioulos, e espero que seja muito breve, poderei fazer um levantamento mais sistemático sobre sua família e o processo violento de expropriação sofrido nos anos 1.940. E com os dados em mãos retornarei a informação a você.
    Saudações quilombolas!
    E viva Brejo dos Crioulos, o mais simbólicos dos quilombos do norte de Minas, que luta pela reapropriação do território tradicional e por uma vida digna para todos os seus membros.

  6. Leila disse:

    Olá Sr.João Batista,

    Meu nome é Leila e sou esposa do Arnaldo.
    PRIMEIRAMENTE AGRADECEMOS MUITO MESMO SEU RETORNO E ATENÇÃO.
    PRESISAMOS REALMENTE DE SUA PRECIOSA AJUDA PARA ESSA PESQUISA REFERENTE A FAMILIA DE D. HELENA.

    Moramos em Almirante Tamandaré, região metropolitana de Curitiba-PR.
    Minha sogra chama-se HELENA ALVES BANDEIRA.
    Tem 82 anos e saiu de Minas Gerais em torno dos 17 anos de idade. Nasceu em São João da Ponte, seus pais: Manoel Alves Bandeira e Luiza Gonçalves da Silva. Sua avó paterna: Joana Alves Bandeira. Seus irmãos: João Alves Bandeira, José Alves Bandeira, Luzia Alves Bandeira e Joana Alves Bandeira.

    Bom, ela conta que o pai, muito conhecido como “Nezinho”, tinha terra no “Brejo dos Criolos” tinha uma casa e um comércio (tipo armazem) e plantava arroz e algodão. Ela perdeu a mãe após um parto, morreu a criança e ela. D. Helena tinha 11 anos, quando quando o pai foi morto bem ali na plantação…e morreu nos braços dela. Ela cre que foi por posse de terra. Daí todos os irmãos foram levados cada um para um lado. A Luzia foi para uma família que morava em Montes claros, o José foi para Curvelo, a Joana chegou a casar-se com um tal de “Lau”. Teve uma doe Teve uma doença (Tuberculose) e não se sabe se faleceu ou recuperou-se e o João, parece que veio para Paraná, casou-se e fez uma lavoura de algodão. casada com “Lau”.
    D. Helena morou com a avó algum tempo em São João da Ponte, depois a avó morreu e ela foi levada para Montes Claros e depois foi para São Paulo.
    Teve o meu esposo que nunca conheceu ninguém da familia, nem foto, nada, a não ser a mãe, que há cerca de 60 anos não vê e nem sabe de ninguém da familia, dos irmãos. Já há tempos estamos procurando, sem sucesso. Agora com a internet, teremos mais condições de pesquisar sobre o paradeiro deles.

    Resumidamente é isso…Ela sofre há anos por não ter contato com os irmãos e sonha em algum dia reencontrá-los.
    Caso possa fazer uma pesquisa por aí e quem sabe ter algum resultado positivo, com certeza fará um bem tão grande a ela que toda a recompensa desse mundo não será suficiente para retribuir-lhe esse bem e não será tão grande quanto a felicidade que ela sentirá ao ver pelo menos um irmão ou alguém da família.

    Deus te abençoe a e a sua familia tb e que o guie por onde andares…
    Grata por tudo…
    Um grande abraço…
    Leila.

  7. João Batista disse:

    Leila e Arnaldo!
    O Ticão, liderança quilombola de Brejo dos Crioulos e alguns universitários que estão no Quilombo estão fazendo o levantamento sobre sua família e assim que houver informações vocês serão contactados.
    Nesse ínterim, procure apoiar a luta de outras comunidades quilombolas no Paraná e em outros estados do Brasil, assim, vocês estarão resgatando o passado familiar e dando força à luta de parentes e companheiros de historicidade, que mesmo em outras terras lutaram e lutam pela liberdade e pela autonomia com dignidade!

  8. Leila disse:

    Olá João Batista,

    Que incrível!!!

    Até há alguns dias atrás não imaginava que toda essa situação poderia acontecer realmente com alguém…..
    Quanta luta e quanto sofrimento de um povo.

    Não conhecia essa história e agradeço muito a vc, que representa uma minoria de seres “humanos”, que se interessa por questões como essa, pesquisa, vai a fundo e com toda a atenção retorna às pessoas que te procuram.

    Deus te abençoe em sua vida e nessa missão de levar o alento às famílias tão sofridas pelas consequencias dos atos de seres “desumanos”, que não se contentam com o que tem e sempre querem o que é do outro, não medindo consequencias para isso.

    Vc está de parabéns!!! e digo isso com toda sinceridade.

    Vc disse que há tb situações como essa em todos os lugares e creio nisso, observando como está a humanidade. Disse para contribuirmos com essa luta aqui no Paaná, mas desconheço onde e como isso acontece por aqui. Pedimos-lhe a gentileza de informar-nos o que, como e onde atuar, pois desejamos fazer parte desse movimento.

    No seu aguardo, já agradecidos por sua atenção e por tudo o que tem feito e o que irá fazer….

    Att.
    Leila.

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